Desabafo de um amigo...
Dia 22 de julho de 2006. Após percorrer o extenso corredor do Jornal da Cidade, em Pindamonhangaba, cidade do interior de São Paulo, entrei pela primeira vez à porta da redação.
Era o meu primeiro dia no JC.
Estudante do primeiro ano de jornalismo, observei todos com certo receio. Mas algo me chamou muita atenção. Um enorme cabelo ondulado (ruivo) escondia uma face...
- Bom dia! Disse ao chegar na mesa central da redação.
Logo àquela face se apresentou – num virar súbito da cadeira giratória.
- Olá, você é o Giovanni, né?! Novo estagiário...
Ela era Rita – “faz tudo”. Braço direito do diretor presidente...
Com mais de 20 anos de casa, sabia de tudo e de todos que por ali passavam. Na casa de seus 35 anos, separada, cuidava da filha e companheira inseparável Lorena. Uma criança esperta... Adorava Coca-Cola!
Rita foi uma das pessoas por quem me apeguei. Juntos, pegamos ônibus – vezes vans lotadas . Era uma das pessoas com quem sentava para almoçar todos os dias no refeitório do JC... Ela adorava música; e eu também. Ela cantava bem. Eu não.
Percebi aos poucos que estava convivendo com uma guerreira.
Certo dia, em uma daquelas “correntes” que chegam via e-mail, um texto muito bonito. Não tinha como saber, mas se tornaria marcante...
Em resumo, o texto contava a história de uma criança que, sentada embaixo das pernas de sua avó, enquanto a senhora bordava, não entendia aquele emaranhado de fios.
- Vovó, por que está tudo tão misturado?
- Meu filho, vá brincar um pouco lá fora e assim que terminar te chamo. Você sentará em meu colo e verá de outro ângulo...
Assim o menino fez!
Passados alguns minutos, foi chamado pela avó para que pudesse entender melhor o “tal” emaranhado de fios. Sentou-se no colo da senhora:
- Nossa vovó, que desenho lindo...
Agora adulto, com carreira profissional e família para sustentar, aquele pequeno menino olha para o céu e faz a mesma pergunta, agora dirigida a Ele: “Deus, por que está tudo tão confuso”.
A resposta parece a mesma que ouviu da avó, anos atrás: “Fique tranquilo meu filho; aqui de cima estou bordando sua vida!”
Lembro-me que repassei a “corrente” para alguns contatos. Rita já trabalhava em uma sala ao lado, na nova divisão de departamentos do jornal. Minutos depois entrou pela porta da redação:
- Adorei o texto, Giovanni. Muito tocante!
Passaram-se os dias. Rita estava incomodada com um caroço próximo ao pescoço. Fez exames.
Estávamos sentados na porta do jornal – era dia de pagamento. Ela passou correndo, aos prantos. Trancou-se na sala com Adélia – secretária e tesoureira do JC.
Mais tarde saberíamos: estava com câncer. Como diria minha avó, que sofreu do mesmo e recusava-se a dizer o nome, a “doença do mal”.
Rita perdeu os cabelos, devido as fortes sessões de quimioterapia. Com uma peruca lisa, dizia: “Ainda volto a ter meus longos ondulados”. A cor da peruca seguia o tom original das madeixas: ruivo.
Deixei o JC e segui meu rumo profissional. Rita estava ainda em tratamento. Alguns meses depois recebi a notícia que ela estava internada no Hospital Regional, em Taubaté.
Fui até lá, em um intervalo da faculdade.
Não gosto de hospital, mas senti vontade de ir.
Fui!
Entrei no quarto em que ela estava, recusando-se a comer a comida do hospital.
- É completamente sem sal! - resmungava.
Mas, o que mais me chamou a atenção foi o porta-retrato ao lado de sua cama. Ele estampava uma foto de Lorena. Para a pequena menina, Rita estava viajando. Não tinha conhecimento da doença da mãe.
Quando Rita me deu “oi”, logo percebi sua voz rouca. As sessões de quimio realizadas até então haviam sido em vão. A doença voltara. Era agressiva e novas sessões viriam pela frente...
Conversamos por 10 minutos e falamos sempre positivamente de sua recuperação. Para minha surpresa, em determinado momento, Rita olhou mais fixamente para mim e com tom de certeza e dúvida disse-me:
- Deus está bordando, não é?
Este foi um momento que guardei por dias; mas hoje sinto mais lucidez - e certa necessidade - em falar no assunto.
Hoje, no dia em que Rita se vai, estou aqui, sentado na frente de meu computador, apenas “desabafando”... Olho para o céu e prefiro dizer: “Agora, Rita, ajude Deus a bordar os caminhos de Lorena...”
* Rita de Cássia Lemos faleceu no dia 10 de agosto de 2008, vítima de câncer, depois de mais de um ano de luta.
Era o meu primeiro dia no JC.
Estudante do primeiro ano de jornalismo, observei todos com certo receio. Mas algo me chamou muita atenção. Um enorme cabelo ondulado (ruivo) escondia uma face...
- Bom dia! Disse ao chegar na mesa central da redação.
Logo àquela face se apresentou – num virar súbito da cadeira giratória.
- Olá, você é o Giovanni, né?! Novo estagiário...
Ela era Rita – “faz tudo”. Braço direito do diretor presidente...
Com mais de 20 anos de casa, sabia de tudo e de todos que por ali passavam. Na casa de seus 35 anos, separada, cuidava da filha e companheira inseparável Lorena. Uma criança esperta... Adorava Coca-Cola!
Rita foi uma das pessoas por quem me apeguei. Juntos, pegamos ônibus – vezes vans lotadas . Era uma das pessoas com quem sentava para almoçar todos os dias no refeitório do JC... Ela adorava música; e eu também. Ela cantava bem. Eu não.
Percebi aos poucos que estava convivendo com uma guerreira.
Certo dia, em uma daquelas “correntes” que chegam via e-mail, um texto muito bonito. Não tinha como saber, mas se tornaria marcante...
Em resumo, o texto contava a história de uma criança que, sentada embaixo das pernas de sua avó, enquanto a senhora bordava, não entendia aquele emaranhado de fios.
- Vovó, por que está tudo tão misturado?
- Meu filho, vá brincar um pouco lá fora e assim que terminar te chamo. Você sentará em meu colo e verá de outro ângulo...
Assim o menino fez!
Passados alguns minutos, foi chamado pela avó para que pudesse entender melhor o “tal” emaranhado de fios. Sentou-se no colo da senhora:
- Nossa vovó, que desenho lindo...
Agora adulto, com carreira profissional e família para sustentar, aquele pequeno menino olha para o céu e faz a mesma pergunta, agora dirigida a Ele: “Deus, por que está tudo tão confuso”.
A resposta parece a mesma que ouviu da avó, anos atrás: “Fique tranquilo meu filho; aqui de cima estou bordando sua vida!”
Lembro-me que repassei a “corrente” para alguns contatos. Rita já trabalhava em uma sala ao lado, na nova divisão de departamentos do jornal. Minutos depois entrou pela porta da redação:
- Adorei o texto, Giovanni. Muito tocante!
Passaram-se os dias. Rita estava incomodada com um caroço próximo ao pescoço. Fez exames.
Estávamos sentados na porta do jornal – era dia de pagamento. Ela passou correndo, aos prantos. Trancou-se na sala com Adélia – secretária e tesoureira do JC.
Mais tarde saberíamos: estava com câncer. Como diria minha avó, que sofreu do mesmo e recusava-se a dizer o nome, a “doença do mal”.
Rita perdeu os cabelos, devido as fortes sessões de quimioterapia. Com uma peruca lisa, dizia: “Ainda volto a ter meus longos ondulados”. A cor da peruca seguia o tom original das madeixas: ruivo.
Deixei o JC e segui meu rumo profissional. Rita estava ainda em tratamento. Alguns meses depois recebi a notícia que ela estava internada no Hospital Regional, em Taubaté.
Fui até lá, em um intervalo da faculdade.
Não gosto de hospital, mas senti vontade de ir.
Fui!
Entrei no quarto em que ela estava, recusando-se a comer a comida do hospital.
- É completamente sem sal! - resmungava.
Mas, o que mais me chamou a atenção foi o porta-retrato ao lado de sua cama. Ele estampava uma foto de Lorena. Para a pequena menina, Rita estava viajando. Não tinha conhecimento da doença da mãe.
Quando Rita me deu “oi”, logo percebi sua voz rouca. As sessões de quimio realizadas até então haviam sido em vão. A doença voltara. Era agressiva e novas sessões viriam pela frente...
Conversamos por 10 minutos e falamos sempre positivamente de sua recuperação. Para minha surpresa, em determinado momento, Rita olhou mais fixamente para mim e com tom de certeza e dúvida disse-me:
- Deus está bordando, não é?
Este foi um momento que guardei por dias; mas hoje sinto mais lucidez - e certa necessidade - em falar no assunto.
Hoje, no dia em que Rita se vai, estou aqui, sentado na frente de meu computador, apenas “desabafando”... Olho para o céu e prefiro dizer: “Agora, Rita, ajude Deus a bordar os caminhos de Lorena...”
* Rita de Cássia Lemos faleceu no dia 10 de agosto de 2008, vítima de câncer, depois de mais de um ano de luta.


1 Comentários:
Que linda História!! A conheci muito pouco... Mais pelos amigos em comum, do que pessoalmente... Mas o suficiente para saber o quanto era rodeada de bons amigos. E que bom, termos bons amigos! São eles que riem e choram conosco e 'debocham' de nossas gafes... Afinal, nossas histórias não teriam o mesmo sentido e valor sem eles. Gi, parabéns por mais uma iniciativa: por misturar histórias e estórias e tornar a vida mais leve e dinâmica!
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