A moradora do 1055
A noite chuvosa do dia 30 de dezembro de 2009 pouco parece importar para ela. Afinal, pouco vai mudar sua rotina no dia seguinte.
Chega 31 - véspera de 2010.
Não tem despertador, mas o varar do sol pelas frestas do 1055 faz com que se levante bem cedo.
O 1055 fica na Rua Nossa Senhora de Fátima, que faz ligação com a Avenida Riachuelo, próximo aos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro.
Ela. Chega! Ela é muito vago... Rute?! É, pode ser Rute! Ou melhor Carmem?
Enfim, seria como em um jogo de loteria: uma hora sairá a bolinha com o nome correto.
Mas, de volta ao dia 31 de dezembro...
Rute – ficamos com este mesmo – teve uma obrigação fisiológica logo cedo. Algo normal para qualquer ser humano. Mas, antes de “cumpri-la”, fumou o primeiro dos cerca dos 30 cigarros que queimaria durante todo o dia.
Depois, a atividade fisiológica acontece de forma natural. Ali mesmo, na segunda sequência de rodas do 1055.
É, Rute mora embaixo da carroceria de um caminhão scania, que fica por dias parado na rua fluminense.
Chegou ali, dizem os moradores, há alguns meses. O poder público já tentou despejá-la. Rute volta. Rute quer ficar...
Não paga aluguel. A luz do sol faz sua função durante longas 14 horas do dia. Água? Comida?
Balela!
Rute caminha pela rua. Não tem amigos. Da fato, reais não... Mas o que é real para Rute?
Quando ela critica o poste que entrou no seu caminho. Ou reclama da árvore que cismou em baixar um braço cheio de pelos verdes em sua cabeça. Rute está interagindo.
Está claro que não tem amigos. Mas é cheia de inimigos. No dia 28, três dias antes da virada para 2010, a senhora do 1055 havia se irritado com um cachorro.
O melhor amigo do homem – mas não de Rute! – havia xeretado em seu saquinho. Brigou por longos minutos com o animal...
Ah, o misterioso saquinho!
Era nele que Rute, sempre com seu vestido longo – preto – e pés no chão – também bem pretos –, mexia incessantemente. Mexia e resmungava.
A crítica; a lamentação; a lamúria... São características que fazem parte da vida daquela senhora.
Assim como o cigarro também faz. Aqui cabe uma correção: não eram cigarros. Eram as famosas “bitucas”. A soma está certa: uma média de 30 por dia...
Agora tudo faz sentido. Ela mexia no saquinho, xingava, e aparecia fumando a bituca. E fumava mesmo; afinal saia fumaça...
É preciso ser enfático no “saia fumaça” – pois de fato saia. Rute fazia tanta coisa em sua realidade paralela, que fumar poderia ser apenas mais uma.
Mas não era... Era a realidade mundana – pertencente a maioria dos seres humanos, onde poste é de concreto; cachorro é animal; e árvore é uma planta. Ponto!
Porém, ela fumava. E, o que era coincidência, agora passa a fazer sentido. Os momentos de fumo aconteciam exatamente após mexer no “tal” saquinho.
Ali, agora numa suposição mais concreta, havia um fósforo. Talvez um isqueiro. Duas pedras. Enfim, algo que permitisse a formação de fogo, que possibilitaria Rute de satisfazer seu vício.
Então, no dia 31 de dezembro, enquanto uma rodinha de samba se forma no bar à frente do caminhão, outros planejam curtir os fogos nas praias ou reunir a família para uma noite de confraternização...
Aquele dia parece comum para Rute. Na realidade dela, talvez não exista horário. Não exista tempo. Afinal, não existe nem mesmo espaço...
Parece estranho: seria possível existir vida sem tempo? Sem espaço? Isso é assunto que envolveria físicos, matemáticos, astrônomos... Deve ser um papo bem chato.
Deve ser mais interessante a discussão acirrada que Rute teve com o poste – é “o poste" mesmo. Era um específico com quem ela encrencava diariamente.
A última discussão presenciada foi no dia 1° de janeiro de 2010.
Enquanto muitos se espantavam com os deslizamentos em Angra dos Reis, ou a enchente em São Luis do Paraitiga, Rute fumava seu quinto pedaço de cigarro, às 10 da manhã, enquanto buscava um senso comum com o poste.
Coisas da Rute!
Chega 31 - véspera de 2010.
Não tem despertador, mas o varar do sol pelas frestas do 1055 faz com que se levante bem cedo.
O 1055 fica na Rua Nossa Senhora de Fátima, que faz ligação com a Avenida Riachuelo, próximo aos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro.
Ela. Chega! Ela é muito vago... Rute?! É, pode ser Rute! Ou melhor Carmem?
Enfim, seria como em um jogo de loteria: uma hora sairá a bolinha com o nome correto.
Mas, de volta ao dia 31 de dezembro...
Rute – ficamos com este mesmo – teve uma obrigação fisiológica logo cedo. Algo normal para qualquer ser humano. Mas, antes de “cumpri-la”, fumou o primeiro dos cerca dos 30 cigarros que queimaria durante todo o dia.
Depois, a atividade fisiológica acontece de forma natural. Ali mesmo, na segunda sequência de rodas do 1055.
É, Rute mora embaixo da carroceria de um caminhão scania, que fica por dias parado na rua fluminense.
Chegou ali, dizem os moradores, há alguns meses. O poder público já tentou despejá-la. Rute volta. Rute quer ficar...
Não paga aluguel. A luz do sol faz sua função durante longas 14 horas do dia. Água? Comida?
Balela!
Rute caminha pela rua. Não tem amigos. Da fato, reais não... Mas o que é real para Rute?
Quando ela critica o poste que entrou no seu caminho. Ou reclama da árvore que cismou em baixar um braço cheio de pelos verdes em sua cabeça. Rute está interagindo.
Está claro que não tem amigos. Mas é cheia de inimigos. No dia 28, três dias antes da virada para 2010, a senhora do 1055 havia se irritado com um cachorro.
O melhor amigo do homem – mas não de Rute! – havia xeretado em seu saquinho. Brigou por longos minutos com o animal...
Ah, o misterioso saquinho!
Era nele que Rute, sempre com seu vestido longo – preto – e pés no chão – também bem pretos –, mexia incessantemente. Mexia e resmungava.
A crítica; a lamentação; a lamúria... São características que fazem parte da vida daquela senhora.
Assim como o cigarro também faz. Aqui cabe uma correção: não eram cigarros. Eram as famosas “bitucas”. A soma está certa: uma média de 30 por dia...
Agora tudo faz sentido. Ela mexia no saquinho, xingava, e aparecia fumando a bituca. E fumava mesmo; afinal saia fumaça...
É preciso ser enfático no “saia fumaça” – pois de fato saia. Rute fazia tanta coisa em sua realidade paralela, que fumar poderia ser apenas mais uma.
Mas não era... Era a realidade mundana – pertencente a maioria dos seres humanos, onde poste é de concreto; cachorro é animal; e árvore é uma planta. Ponto!
Porém, ela fumava. E, o que era coincidência, agora passa a fazer sentido. Os momentos de fumo aconteciam exatamente após mexer no “tal” saquinho.
Ali, agora numa suposição mais concreta, havia um fósforo. Talvez um isqueiro. Duas pedras. Enfim, algo que permitisse a formação de fogo, que possibilitaria Rute de satisfazer seu vício.
Então, no dia 31 de dezembro, enquanto uma rodinha de samba se forma no bar à frente do caminhão, outros planejam curtir os fogos nas praias ou reunir a família para uma noite de confraternização...
Aquele dia parece comum para Rute. Na realidade dela, talvez não exista horário. Não exista tempo. Afinal, não existe nem mesmo espaço...
Parece estranho: seria possível existir vida sem tempo? Sem espaço? Isso é assunto que envolveria físicos, matemáticos, astrônomos... Deve ser um papo bem chato.
Deve ser mais interessante a discussão acirrada que Rute teve com o poste – é “o poste" mesmo. Era um específico com quem ela encrencava diariamente.
A última discussão presenciada foi no dia 1° de janeiro de 2010.
Enquanto muitos se espantavam com os deslizamentos em Angra dos Reis, ou a enchente em São Luis do Paraitiga, Rute fumava seu quinto pedaço de cigarro, às 10 da manhã, enquanto buscava um senso comum com o poste.
Coisas da Rute!


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