Uma lição...

“Mamãe, quero ver Jesus!”. Essa foi a frase que Ana Lucia Tupinambá Machado Cordeiro ouviu de seu segundo filho, Heitor Tupinambá Machado Cordeiro. O garoto tinha apenas cinco anos e estava aconchegado no colo da mãe, enquanto ela caminhava pelo quintal da residência, em Eugênio de Melo, distrito de São José dos Campos. Ver a mãe e o pequeno filho conversando era uma cena comum.
Travesso e muito apegado à irmã Natália, três anos e meio mais velha, Heitor tinha um grande sonho: queria ser jogador de futebol. Para isso, esperava completar seis anos, quando seria inscrito no time da Escolinha de Futebol Clube Luso Brasileiro, local frequentado pelos pais. Por ora, a prioridade era estudar. Ouvia sempre da mãe o seguinte recado: “quem não estuda vai virar lixeiro”. Heitor era breve: “Não quero ser lixeiro!”.
Pronto. Estava resolvido que o ideal era mesmo seguir para a escola e aprender o “abc”. Em casa, quando não era a companhia da mãe enquanto ela estendia roupas, Heitor corria pela residência, brincando e, claro, brigando com a irmã. Algo natural entre irmãos. “Assim que tive meu segundo filho, percebi que era a hora de me dedicar a minha casa. Cuidar mesmo da família”, lembra Ana Lúcia.
A relação com os filhos sempre foi muito próxima, o que fazia de Ana Lucia uma mãe dedicada e atenciosa. Diante do desejo do filho de ver Jesus, logo ocorreu um pensamento à Ana Lúcia: para ver Jesus, ele teria que morrer. Então, vou dizer a ele que não quero que ele o veja; não agora. “Mas você pode ver Jesus, filho. Quando vamos à igreja, nas orações, adorações e nas encenações”, respondera a Heitor. Era início de 1998. “Mas quero ver Jesus assim...”. Heitor agarrara o antebraço esquerdo da mãe, como se explicasse que queria ver Jesus em “carne e osso”.
Um silêncio interrompeu a conversa durante alguns instantes. Ana Lúcia lembra que ficou num vácuo, esperando que uma resposta apropriada lhe viesse à mente. “Ah, filho, assim mamãe não quer ver Jesus não!”. Mas Heitor tinha mais a acrescentar. Olhando para o céu, o pequeno afirmou com uma certeza surpreendente: “Eu vou ver Jesus”.
Era sexta-feira, dia 8 de maio. Heitor pela primeira vez ia para o colégio de ônibus- cursava a pré-escola em um colégio chamado Renascença, em Caçapava. “Nem passar embaixo da roleta ele sabia direito”, diverte-se Ana Lúcia, lembrando das peripécias do filho dentro do transporte público. Na escolinha, era dia de homenagens para as mães. O pequeno sonhador estava animado.
Feita a apresentação, a família decidiu ir ao Center Vale Shopping, em São José dos Campos. Além de Ana Lucia e Heitor, estava o pai, José Márcio Cordeiro, e Natália. Na verdade, não era só um simples passeio. O objetivo era escolher o melhor presente de dia das mães para Ana. Cumprida a maratona da sexta-feira, os quatro foram para a casa.
No dia seguinte, José Marcio levantou bem cedo e seguiu para a fábrica. Natália e Heitor dormiam. Por volta das oito e meia da manhã, Ana Lúcia lembra ter se assustado com os gritos do filho. Ao entrar no quarto, Heitor pulava e gritava de dor. Ele sentia muitas dores na cabeça. Então, ela o pegou no colo e o levou até o sofá da sala. Fez massagem na região da cabeça, mas não adiantava. “Está doendo!”, gritava Heitor.
“Lembro-me de ver a ‘veiazinha’ no canto da cabeça dele pulsando. Era realmente uma dor de cabeça muito forte”. Heitor nunca havia sentido nada. Em cinco anos, queixara-se apenas uma vez de uma leve dor no local. No mais, era uma criança extremamente saudável. Os dois cortes que sofreu, um deles no queixo, eram resultado de uma vida agitada de qualquer criança.
Aliás, Heitor se mostrava sempre resistente, talvez, imune. Não aguentava ver uma cara de piedade quando caía. No dia em que cortou o queixo, precisou levar alguns pontos. Deitado na maca enquanto o médico se preparava para o procedimento, pediu que a mãe ficasse de longe. “Eu entrava na sala do hospital junto com meu marido e acho que pela cara de piedade que fazia ele dizia: sai pra lá, mamãe!”, recorda Ana Lúcia.
Observando que a dor do filho era contínua, a mãe ligou para o marido a fim de avisar que o melhor era levá-lo ao hospital. Nesse meio tempo, Ana Lucia pegou o garoto e foi até o quarto dele, para pegar algumas roupas. “Percebi que ele não estava respondendo direito. Ele estava desmaiando. Entrando em coma”, detalha.
Ainda na manhã de sábado, a criança foi levada ao Hospital Prontil, em São José. Os primeiros exames apontaram que eram necessários procedimentos mais ágeis. Transferido para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Infantil Policlin, rapidamente Heitor foi encaminhado para outra unidade, localizada na Avenida 9 de julho. O estado de saúde era grave.
Os médicos diagnosticaram que ele sofria um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e era necessária uma cirurgia de emergência. “Não é algo comum de acontecer em crianças, mas os médicos acreditam que ele já tenha nascido com o coágulo”, explica Ana Lucia. A cirurgia foi comandada pelo Dr. Ciro e durou cinco horas. Entretanto, depois disso, ele foi reencaminhado para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde seguiria o tratamento.
Terminada a cirurgia, os médicos sentaram com os pais para os colocarem a par de todos os procedimentos. A operação havia corrido da melhor forma possível, o coagulo – em estado avançado – tinha sido removido, mas tudo agora dependeria do pós-cirúrgico: era preciso aguardar a reação de Heitor para uma nova análise do quadro clínico.
Os pais seguiram para a casa. O dia seguinte era Dia das Mães. Ana Lucia e José Márcio estavam cientes de que o telefone tocaria apenas se o quadro de saúde de Heitor se agravasse. Na manhã do domingo, o telefone tocou. Era do hospital. O casal seguiu à UTI e, pelo vidro, podiam observar Heitor na cama, com os suportes dos aparelhos respiratórios. Ele estava “quentinho”, diziam os médicos, mas seu estado de saúde realmente era delicado. Nessas alturas, a filha Natália estava na casa de amigos do casal, que deram muito apoio nesse momento tão difícil. “Ela não podia viver tudo aquilo. Era um momento muito carregado. Tudo aconteceu muito de repente”, afirma Ana Lúcia.
A mãe sentia nos médicos um tom de pouco entusiasmo. Talvez tivessem poupando-a por ser dias das mães, mas tinham clareza de que o quadro de saúde de Heitor era realmente irreversível.
Na segunda-feira, dia 11 de maio, os pais dirigiram-se novamente para o hospital. Abalada interiormente, Ana Lucia não demonstrava tanta emoção como o marido. José Marcio estava visivelmente abatido, chorando durante quase todo tempo. Os médicos observavam a reação do casal. Diante do que viam, Dra. Márcia, que fazia parte da equipe, resolveu aproximar-se de Ana Lucia. Com os braços enganchados nos da mãe de Heitor, as duas caminhavam pela sala de espera do hospital e, com cautela, a doutora explicava a Ana Lúcia sobre a morte encefálica do filho. Heitor estava vivendo apenas com o apoio dos aparelhos, uma vez que o cérebro não enviava mais estímulos ao organismo.
* Trecho inicial do último capítulo do livro "História sobreviventes", do Trabalho de Conclusão de Curso na Unitau, feito em parceria com a jornalista Ana Camila Campos. Amanhã, publico a segunda parte.


1 Comentários:
Até hoje 19/07/2016 , minha irmã Ana Lúcia,luta contra a depressão e a tristeza da saudade.Imaginamos hoje como seria o Heitor,pois ele gostava de se arrumar e era cheio de estilo,assim como o meu filho Enzo,que hoje tbm tem 5 anos de idade.
Minha irmã é muito forte,pois não sei se eu conseguiria suportar essa perda.
Que Deus continue a dar forças à minha irmã!!
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial