quinta-feira, 24 de março de 2011

Uma lição...(continuação)

A dor nos permite enxergar além

Em meio ao sentimento de angústia e dor por estarem perdendo o filho, que dali a 40 dias completaria seis anos e realizaria o sonho de entrar para escolinha de futebol, o casal teve uma atitude que surpreenderia a muitos parentes e amigos, bem como toda a região.

No ano anterior ao falecimento de Heitor, havia entrado em discussão no Legislativo Brasileiro uma nova Lei de Doação de Órgãos, que tornava o ato compulsório. Aprovada no mesmo ano, ela entrou em vigor em 1998. A família de Heitor sequer podia imaginar que, tão em breve, o pequeno garoto se tornaria o primeiro doador do Vale do Paraíba.

A decisão dos pais de Heitor foi a de doar os órgãos do filho. Ana Lucia e José Marcio ainda não haviam pensado na possibilidade, pois a dor da perda não permitia pensar além daquilo. Entretanto, um comentário de Paulo, irmão de Ana, despertou a possibilidade. “Fizemos o melhor; aquilo era o certo... Não são todas as pessoas que podem doar e acredito que foi nossa melhor decisão”, afirma a mãe do doador.

Depois do parecer da Dr. Márcia sobre a morte encefálica de Heitor, os pais estavam parados próximo ao vidro do quarto da UTI, quando dois médicos se aproximaram para saber qual seria a decisão. O “sim” do casal sobre a doação fez com que um dos profissionais corresse para uma salinha próxima. “Ele foi chorar escondido para não chorar perto de nós”, lembra Ana Lucia. A atitude do casal era um marco e um grande exemplo de pensamento altruísta.

Com a decisão tomada, ainda na segunda-feira, os pais de Heitor seguiram para o “corredor” burocrático de todo processo. Assinaram alguns papeis, onde entre outros dados, indicavam quais órgãos poderiam ser retirados.

O nervosismo do momento fez a pressão da mãe de Heitor subir. Sozinho na sala, o marido de Ana Lucia ouviu da assistente social do hospital: “Olha, vocês não sabem o que vocês fizeram. O tamanho do bem...”

Ana Lucia acreditava que tudo terminaria ainda no mesmo dia, mas os profissionais do Hospital das Clínicas de Campinas, ainda hoje central de captação, chegaram apenas na terça-feira, dia 12, para a retirada das duas córneas, os rins, o fígado e o coração de Heitor.

Fazer o bem acalma o coração

A decisão dos pais de Heitor acabou gerando uma grande repercussão no Vale do Paraíba e Região. A Família foi incansavelmente procurada pela imprensa nas semanas seguintes ao falecimento do garoto de cinco anos. Foram tantas entrevistas que a filha do casal dizia “mãe, não aguento mais falar sobre isso”. A ferida ainda estava aberta e qualquer lembrança fazia doer.

A presença constante da imprensa, de certa forma, incomodava Natália. Com nove anos, ela havia sido muito apegada ao irmão e ficar repetidas vezes relembrando os momentos finais dele era muito dolorido. De jornalistas, ouviam pedidos para pose em fotos, com brinquedos e fotos de Heitor na mão. “Alguns pediam para que nos sorríssemos para demonstrarmos a satisfação pelo nosso ato”, lembra Ana Lucia. Todavia, a atitude da doação, por si só, resume a “moral” da história.

Após a morte e as entrevistas, José Marcio decidiu mudar de casa, pois afirmava que não teria mais vontade de cuidar e arrumar aquela residência. Em uma faxina na nova casa da família, Natália também pediu para que os quadros com as fotografias de Heitor fossem guardados. A lembrança deveria permanecer apenas na memória.

Uma forma de continuar vivendo

Dos órgãos retirados, a família de Heitor teve conhecimento e contato com quatro receptores. Por uma norma de privacidade, o hospital não revela quem foram os beneficiados pelos órgãos. Mas Ana Lúcia tomou conhecimento que o fígado de Heitor foi para uma criança de apenas um ano, que necessitada urgentemente da doação. Apenas o transplante de coração não foi consumado, pois o receptor estava doente. “Ainda brinquei: o coração é meu!”, recorda Ana Lucia.

Uma das córneas de Heitor, retirada pelo oftalmologista José Shinzato, foi doada ao carreteiro Manoel Filho Pontes, de 49 anos, morador do Campo dos Alemães. O rapaz chegou a ligar para a família do doador para agradecer ao gesto; e meses depois viria a conhecê-los pessoalmente.
A segunda foi para o estudante Francisco Carlos de Carvalho, de 17 anos. Morador de Jacareí, o jovem estava no ponto de ônibus certo dia, quando repentinamente começou a perder a visão.

Com o passar do tempo, a situação de Francisco piorava. Largou os estudos e o emprego, passando a viver trancado, sozinho, dentro do quarto. Simplesmente não tinha mais coragem de viver. Depois da operação, que permitiu uma “nova” vida ao jovem, os familiares de Francisco receberam da avó de Heitor uma foto do pequeno. Quando lembra especialmente desse caso, os olhos de Ana Lúcia enchem de lágrimas e ela fica alguns instantes em silêncio- a emoção não permite falar. Silêncio que diz mais do que “mil” palavras.

São vidas que se reconstruíram e recomeçaram por um gesto de coragem e muita fé. “Os momentos durante todos aqueles dias de hospital, até a decisão pela doação, me sentia segura em Deus. Ele estava me abraçando”, descreve Ana Lucia. Era como se um pai abraçasse o filho, a fim de confortá-lo em meio a dor. “Não podemos imaginar que apenas nós temos problemas. É preciso sair do egoísmo!”, completa.

Transpor-se ao lugar de outras famílias. Ana Lucia “colocava-se” na pele de outras mães, que viviam momentos de angústia à espera de um órgão para seus filhos. Era uma tarefa difícil, mas necessária; De acordo com ela, possível apenas com a força de Deus. “Se você inverte a situação e imagina que para seu filho viver você também desejaria um órgão para salvá-lo, fica mais fácil. Meu filho vive em outra pessoa. Demos chances para outras pessoas seguirem suas vidas”, afirma Ana Lucia.

O sentimento da perda aos poucos vai se transformando em lembrança e deixando na memória apenas os momentos bons - momentos felizes, as risadas gostosas, o choro manhoso e o abraço carinhoso do filho.

A família chegou a sentir de algumas pessoas, certa reprovação diante da atitude de optar pela doação. Às vezes, surgia uma dúvida bem remota, que questionava se a atitude havia sido correta ou não. “Quando pensamos no outro, no próximo, isso mexe com a gente”, salienta Ana. A força Divina é outro ponto importante que os pais de Heitor destacam como fundamental na decisão pela doação.

“Heitor iria gostar de ajudar outras pessoas. É uma forma de estar mais perto de Deus”, encerra Ana Lucia. A família continua levando a vida, certos de que de uma vida, muitas outras continuaram a pulsar.

* Trecho final do último capítulo do livro "História sobreviventes", do Trabalho de Conclusão de Curso na Unitau, feito em parceria com a jornalista Ana Camila Campos.

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