Seres pontes

A relação humana é constituída por um emaranhado de frases ("sonoras" ou não), que são formadas por uma sequência - nem sempre lógica - de palavras. Palavra, que por sua vez, é uma construção resultado da soma de letras - na concepção humana, em uma distribuição ordenada. Resumindo, a vida é complexa...

O pulsar da cultura regional faz acender na alma o gostinho de sentir o “nosso chão”, comer aquilo que brota de nossa terra, ouvir o que nasce de nossos gênios. Do andar de cima, Elpidio deve ter vibrado ao ver a Praça Dr. Oswaldo Cruz, no centro de São Luiz do Paraitinga, tomada por uma multidão. O coreto, que leva seu nome – Elpídio dos Santos – virou palco de um momento ímpar da música brasileira.
Para comemorar o centenário de Elpídio, que deixa saudades e um legado áureo de sons e arte, grandes nomes da nossa música popular prestaram uma homenagem. Cantaram com a alma as composições do “mestre”. Na terra do “mestre”. O boneco de Elpídio, ao lado do palco, era a caracterização visual da presença do compositor. Estar diante das canções do artista, interpretadas por nomes como Fafá e Mariana Belém, Renato e Chico Teixeira, Zé Geraldo, Nô Stopa, Suzana Salles, Camelo Frade e Zeca Baleiro, é encontrar-se com a identidade. Aquilo que é do nosso povo. Povo valeparaibano.
Participaram dessa grande festa músicos como Negão dos Santos, filho do compositor e responsável pela escolha do repertório que hoje se transforma em um CD e DVD, além de Gabriel Sater, Gabriel Guedes, Caito Marcondes, Ricardo Zohyo e João Gaspar.
Elpídio deixa saudade e canta saudade. “A saudade que dói; a saudade danada”. Deixou palavras de amor; falou do homem da terra. Caracterizou o caipira e “promoveu” o campo. Elpídio, do Vale do Paraíba, para o Brasil. O público vibrou, aplaudiu, cantou junto. Chorou. Não havia script, mas havia harmonia: “público-intérpretes-Elpídio”.
Mais de três horas de apresentações. Repetem-se canções para que o “produto final” fique harmônico. Não há sentimento de cansaço. “Você vai gostar”, ao ver a casinha branca lá no pé da serra, interpretada três vezes. No palco, todos os participantes da homenagem ao centenário. Pelo público, pode-se gravar mais quantas vezes for preciso. Mas o produtor faz um sinal positivo e reverencia os intérpretes, que reverenciam o público, que retribui com aplausos.
Elpidio completa 100 anos no coração de cada luziense; de cada brasileiro que aprecia a boa música e valoriza o que há de “poder chamar de seu”. E há muito! Há História; há música, há emoção, há sentimento... Mais importante, há raiz e identidade!
“Quando for dia de festa você veste o seu vestido de algodão...”. A noite foi de festa e emoção. Coberto de jeans, seda ou cetim, valeu ouvir a canção. O som de Elpídio é som de nossa gente e riqueza de nossa terra.
Viva Elpídio!
*Crônica adaptada, escrita originalmente em 2010, quando ocorreu a gravação do CD e DVD em homenagem ao centenário de Elpídio dos Santos. Publicado nesta semana em referência ao show de lançamento do projeto.
