sexta-feira, 25 de março de 2011

Eu e a porca - a maledeta porca!


Imagine pegar na mão um ventilador para montar. Dessas peças simples, que você coloca em cima da mesa para ventilar o ambiente. Não supera o meio metro de altura...

Bom, retira-se o objeto da caixa e o coloca dividido em alguns pedaços sobre uma superfície plana. Está repartido da seguinte forma: peça do motor, suporte, grade traseira, grade dianteira, conjunto de hélices e o fixador dianteiro e uma porca.

Sim, tinha uma bendita porca!

Antes de prosseguir, cabe contextualizar. Já estamos no outono, o mês de março ainda traz as famosas chuvas do fim de verão e os dias ainda permanecem um pouco abafados. Claro, fator que explica a chuva no fim do dia...

Após chover, a temperatura cai um pouco. Porém, o calor é algo muito pessoal – assim como o frio. Alguns sentem mais; outros, menos...

Para quem sente calor em excesso, um ventilador pode ajudar. Está explicada a necessidade da montagem da simples peça. Aparentemente simples. Talvez!

Inicia-se o processo de encaixe das peças.

Ao lado está o manual de instrução. Fechado. Não faz sentido abri-lo, afinal todas as peças estão na ordem e vão se unindo. Chego a pensar que o processo virou automático. Sete peças. Todas se “encontrando” como em um passe de mágica.

Vai peça um, peça dois, peça três... Chega a hora do encaixe da porca. Depois disso, basta ligar o aparelho na tomada e refrescar o ambiente. Do abrir a caixa até a colocação da porca, lá se foram uns 10 minutos. Ao lado, não se esqueça, o manual segue fechado.

Voltando ao momento final – a colocação da porca... Ah, a maldita porca!

Cadê que não é possível realizar o simples movimento de rosquear a porca no parafuso?

Cai porca pra cá. Cai porca pra lá.

O que parecia um processo mágico transforma-se em um filme de terror. Já se foram mais 10 minutos; Apenas tentando encaixar a “maledeta” porca!

Abrir o manual para ver como se encaixa uma porca? Nunca!

No momento do nervosismo cômico, enfia-se o ventilador na tomada. Claro, óbvio, evidente: a hélice pulou. Sai rolando quarto afora!

Porca F... Porca do C...Porca dos I...

Mais 10 minutos!

Mesmo com alto grau de inconformismo, abre-se o manual. Acredite: a “P” da porca para entrar na “m” do parafuso tem que ser rosqueada no sentido anti-horário... Quem inventa uma “P” de uma porca que entra numa “M” de um parafuso no sentido anti-horário?

Não dá nem para culpar português, pois o ventilador é produzido no Brasil! Vamos poupar a marca neste caso.

Enfim, recolhe-se todas as peças que estão espalhadas pelo quarto e conclui-se a montagem.

Agora, ligar o ventilador é questão de necessidade.

O suor escorre pelo rosto.

Ventilador montado. Saldo final: 30 minutos entre o mundo mágico e o inferno em forma de porca. Ah, passados 10 minutos já fazia frio... Desliga-se o ventilador!

Feliz era na infância, quando porca não passava de um bicho rosado que grunhia.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Uma lição...(continuação)

A dor nos permite enxergar além

Em meio ao sentimento de angústia e dor por estarem perdendo o filho, que dali a 40 dias completaria seis anos e realizaria o sonho de entrar para escolinha de futebol, o casal teve uma atitude que surpreenderia a muitos parentes e amigos, bem como toda a região.

No ano anterior ao falecimento de Heitor, havia entrado em discussão no Legislativo Brasileiro uma nova Lei de Doação de Órgãos, que tornava o ato compulsório. Aprovada no mesmo ano, ela entrou em vigor em 1998. A família de Heitor sequer podia imaginar que, tão em breve, o pequeno garoto se tornaria o primeiro doador do Vale do Paraíba.

A decisão dos pais de Heitor foi a de doar os órgãos do filho. Ana Lucia e José Marcio ainda não haviam pensado na possibilidade, pois a dor da perda não permitia pensar além daquilo. Entretanto, um comentário de Paulo, irmão de Ana, despertou a possibilidade. “Fizemos o melhor; aquilo era o certo... Não são todas as pessoas que podem doar e acredito que foi nossa melhor decisão”, afirma a mãe do doador.

Depois do parecer da Dr. Márcia sobre a morte encefálica de Heitor, os pais estavam parados próximo ao vidro do quarto da UTI, quando dois médicos se aproximaram para saber qual seria a decisão. O “sim” do casal sobre a doação fez com que um dos profissionais corresse para uma salinha próxima. “Ele foi chorar escondido para não chorar perto de nós”, lembra Ana Lucia. A atitude do casal era um marco e um grande exemplo de pensamento altruísta.

Com a decisão tomada, ainda na segunda-feira, os pais de Heitor seguiram para o “corredor” burocrático de todo processo. Assinaram alguns papeis, onde entre outros dados, indicavam quais órgãos poderiam ser retirados.

O nervosismo do momento fez a pressão da mãe de Heitor subir. Sozinho na sala, o marido de Ana Lucia ouviu da assistente social do hospital: “Olha, vocês não sabem o que vocês fizeram. O tamanho do bem...”

Ana Lucia acreditava que tudo terminaria ainda no mesmo dia, mas os profissionais do Hospital das Clínicas de Campinas, ainda hoje central de captação, chegaram apenas na terça-feira, dia 12, para a retirada das duas córneas, os rins, o fígado e o coração de Heitor.

Fazer o bem acalma o coração

A decisão dos pais de Heitor acabou gerando uma grande repercussão no Vale do Paraíba e Região. A Família foi incansavelmente procurada pela imprensa nas semanas seguintes ao falecimento do garoto de cinco anos. Foram tantas entrevistas que a filha do casal dizia “mãe, não aguento mais falar sobre isso”. A ferida ainda estava aberta e qualquer lembrança fazia doer.

A presença constante da imprensa, de certa forma, incomodava Natália. Com nove anos, ela havia sido muito apegada ao irmão e ficar repetidas vezes relembrando os momentos finais dele era muito dolorido. De jornalistas, ouviam pedidos para pose em fotos, com brinquedos e fotos de Heitor na mão. “Alguns pediam para que nos sorríssemos para demonstrarmos a satisfação pelo nosso ato”, lembra Ana Lucia. Todavia, a atitude da doação, por si só, resume a “moral” da história.

Após a morte e as entrevistas, José Marcio decidiu mudar de casa, pois afirmava que não teria mais vontade de cuidar e arrumar aquela residência. Em uma faxina na nova casa da família, Natália também pediu para que os quadros com as fotografias de Heitor fossem guardados. A lembrança deveria permanecer apenas na memória.

Uma forma de continuar vivendo

Dos órgãos retirados, a família de Heitor teve conhecimento e contato com quatro receptores. Por uma norma de privacidade, o hospital não revela quem foram os beneficiados pelos órgãos. Mas Ana Lúcia tomou conhecimento que o fígado de Heitor foi para uma criança de apenas um ano, que necessitada urgentemente da doação. Apenas o transplante de coração não foi consumado, pois o receptor estava doente. “Ainda brinquei: o coração é meu!”, recorda Ana Lucia.

Uma das córneas de Heitor, retirada pelo oftalmologista José Shinzato, foi doada ao carreteiro Manoel Filho Pontes, de 49 anos, morador do Campo dos Alemães. O rapaz chegou a ligar para a família do doador para agradecer ao gesto; e meses depois viria a conhecê-los pessoalmente.
A segunda foi para o estudante Francisco Carlos de Carvalho, de 17 anos. Morador de Jacareí, o jovem estava no ponto de ônibus certo dia, quando repentinamente começou a perder a visão.

Com o passar do tempo, a situação de Francisco piorava. Largou os estudos e o emprego, passando a viver trancado, sozinho, dentro do quarto. Simplesmente não tinha mais coragem de viver. Depois da operação, que permitiu uma “nova” vida ao jovem, os familiares de Francisco receberam da avó de Heitor uma foto do pequeno. Quando lembra especialmente desse caso, os olhos de Ana Lúcia enchem de lágrimas e ela fica alguns instantes em silêncio- a emoção não permite falar. Silêncio que diz mais do que “mil” palavras.

São vidas que se reconstruíram e recomeçaram por um gesto de coragem e muita fé. “Os momentos durante todos aqueles dias de hospital, até a decisão pela doação, me sentia segura em Deus. Ele estava me abraçando”, descreve Ana Lucia. Era como se um pai abraçasse o filho, a fim de confortá-lo em meio a dor. “Não podemos imaginar que apenas nós temos problemas. É preciso sair do egoísmo!”, completa.

Transpor-se ao lugar de outras famílias. Ana Lucia “colocava-se” na pele de outras mães, que viviam momentos de angústia à espera de um órgão para seus filhos. Era uma tarefa difícil, mas necessária; De acordo com ela, possível apenas com a força de Deus. “Se você inverte a situação e imagina que para seu filho viver você também desejaria um órgão para salvá-lo, fica mais fácil. Meu filho vive em outra pessoa. Demos chances para outras pessoas seguirem suas vidas”, afirma Ana Lucia.

O sentimento da perda aos poucos vai se transformando em lembrança e deixando na memória apenas os momentos bons - momentos felizes, as risadas gostosas, o choro manhoso e o abraço carinhoso do filho.

A família chegou a sentir de algumas pessoas, certa reprovação diante da atitude de optar pela doação. Às vezes, surgia uma dúvida bem remota, que questionava se a atitude havia sido correta ou não. “Quando pensamos no outro, no próximo, isso mexe com a gente”, salienta Ana. A força Divina é outro ponto importante que os pais de Heitor destacam como fundamental na decisão pela doação.

“Heitor iria gostar de ajudar outras pessoas. É uma forma de estar mais perto de Deus”, encerra Ana Lucia. A família continua levando a vida, certos de que de uma vida, muitas outras continuaram a pulsar.

* Trecho final do último capítulo do livro "História sobreviventes", do Trabalho de Conclusão de Curso na Unitau, feito em parceria com a jornalista Ana Camila Campos.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Uma lição...


“Mamãe, quero ver Jesus!”. Essa foi a frase que Ana Lucia Tupinambá Machado Cordeiro ouviu de seu segundo filho, Heitor Tupinambá Machado Cordeiro. O garoto tinha apenas cinco anos e estava aconchegado no colo da mãe, enquanto ela caminhava pelo quintal da residência, em Eugênio de Melo, distrito de São José dos Campos. Ver a mãe e o pequeno filho conversando era uma cena comum.

Travesso e muito apegado à irmã Natália, três anos e meio mais velha, Heitor tinha um grande sonho: queria ser jogador de futebol. Para isso, esperava completar seis anos, quando seria inscrito no time da Escolinha de Futebol Clube Luso Brasileiro, local frequentado pelos pais. Por ora, a prioridade era estudar. Ouvia sempre da mãe o seguinte recado: “quem não estuda vai virar lixeiro”. Heitor era breve: “Não quero ser lixeiro!”.


Pronto. Estava resolvido que o ideal era mesmo seguir para a escola e aprender o “abc”. Em casa, quando não era a companhia da mãe enquanto ela estendia roupas, Heitor corria pela residência, brincando e, claro, brigando com a irmã. Algo natural entre irmãos. “Assim que tive meu segundo filho, percebi que era a hora de me dedicar a minha casa. Cuidar mesmo da família”, lembra Ana Lúcia.

A relação com os filhos sempre foi muito próxima, o que fazia de Ana Lucia uma mãe dedicada e atenciosa. Diante do desejo do filho de ver Jesus, logo ocorreu um pensamento à Ana Lúcia: para ver Jesus, ele teria que morrer. Então, vou dizer a ele que não quero que ele o veja; não agora. “Mas você pode ver Jesus, filho. Quando vamos à igreja, nas orações, adorações e nas encenações”, respondera a Heitor. Era início de 1998. “Mas quero ver Jesus assim...”. Heitor agarrara o antebraço esquerdo da mãe, como se explicasse que queria ver Jesus em “carne e osso”.

Um silêncio interrompeu a conversa durante alguns instantes. Ana Lúcia lembra que ficou num vácuo, esperando que uma resposta apropriada lhe viesse à mente. “Ah, filho, assim mamãe não quer ver Jesus não!”. Mas Heitor tinha mais a acrescentar. Olhando para o céu, o pequeno afirmou com uma certeza surpreendente: “Eu vou ver Jesus”.

Era sexta-feira, dia 8 de maio. Heitor pela primeira vez ia para o colégio de ônibus- cursava a pré-escola em um colégio chamado Renascença, em Caçapava. “Nem passar embaixo da roleta ele sabia direito”, diverte-se Ana Lúcia, lembrando das peripécias do filho dentro do transporte público. Na escolinha, era dia de homenagens para as mães. O pequeno sonhador estava animado.

Feita a apresentação, a família decidiu ir ao Center Vale Shopping, em São José dos Campos. Além de Ana Lucia e Heitor, estava o pai, José Márcio Cordeiro, e Natália. Na verdade, não era só um simples passeio. O objetivo era escolher o melhor presente de dia das mães para Ana. Cumprida a maratona da sexta-feira, os quatro foram para a casa.

No dia seguinte, José Marcio levantou bem cedo e seguiu para a fábrica. Natália e Heitor dormiam. Por volta das oito e meia da manhã, Ana Lúcia lembra ter se assustado com os gritos do filho. Ao entrar no quarto, Heitor pulava e gritava de dor. Ele sentia muitas dores na cabeça. Então, ela o pegou no colo e o levou até o sofá da sala. Fez massagem na região da cabeça, mas não adiantava. “Está doendo!”, gritava Heitor.

“Lembro-me de ver a ‘veiazinha’ no canto da cabeça dele pulsando. Era realmente uma dor de cabeça muito forte”. Heitor nunca havia sentido nada. Em cinco anos, queixara-se apenas uma vez de uma leve dor no local. No mais, era uma criança extremamente saudável. Os dois cortes que sofreu, um deles no queixo, eram resultado de uma vida agitada de qualquer criança.

Aliás, Heitor se mostrava sempre resistente, talvez, imune. Não aguentava ver uma cara de piedade quando caía. No dia em que cortou o queixo, precisou levar alguns pontos. Deitado na maca enquanto o médico se preparava para o procedimento, pediu que a mãe ficasse de longe. “Eu entrava na sala do hospital junto com meu marido e acho que pela cara de piedade que fazia ele dizia: sai pra lá, mamãe!”, recorda Ana Lúcia.

Observando que a dor do filho era contínua, a mãe ligou para o marido a fim de avisar que o melhor era levá-lo ao hospital. Nesse meio tempo, Ana Lucia pegou o garoto e foi até o quarto dele, para pegar algumas roupas. “Percebi que ele não estava respondendo direito. Ele estava desmaiando. Entrando em coma”, detalha.

Ainda na manhã de sábado, a criança foi levada ao Hospital Prontil, em São José. Os primeiros exames apontaram que eram necessários procedimentos mais ágeis. Transferido para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Infantil Policlin, rapidamente Heitor foi encaminhado para outra unidade, localizada na Avenida 9 de julho. O estado de saúde era grave.

Os médicos diagnosticaram que ele sofria um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e era necessária uma cirurgia de emergência. “Não é algo comum de acontecer em crianças, mas os médicos acreditam que ele já tenha nascido com o coágulo”, explica Ana Lucia. A cirurgia foi comandada pelo Dr. Ciro e durou cinco horas. Entretanto, depois disso, ele foi reencaminhado para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde seguiria o tratamento.

Terminada a cirurgia, os médicos sentaram com os pais para os colocarem a par de todos os procedimentos. A operação havia corrido da melhor forma possível, o coagulo – em estado avançado – tinha sido removido, mas tudo agora dependeria do pós-cirúrgico: era preciso aguardar a reação de Heitor para uma nova análise do quadro clínico.

Os pais seguiram para a casa. O dia seguinte era Dia das Mães. Ana Lucia e José Márcio estavam cientes de que o telefone tocaria apenas se o quadro de saúde de Heitor se agravasse. Na manhã do domingo, o telefone tocou. Era do hospital. O casal seguiu à UTI e, pelo vidro, podiam observar Heitor na cama, com os suportes dos aparelhos respiratórios. Ele estava “quentinho”, diziam os médicos, mas seu estado de saúde realmente era delicado. Nessas alturas, a filha Natália estava na casa de amigos do casal, que deram muito apoio nesse momento tão difícil. “Ela não podia viver tudo aquilo. Era um momento muito carregado. Tudo aconteceu muito de repente”, afirma Ana Lúcia.

A mãe sentia nos médicos um tom de pouco entusiasmo. Talvez tivessem poupando-a por ser dias das mães, mas tinham clareza de que o quadro de saúde de Heitor era realmente irreversível.

Na segunda-feira, dia 11 de maio, os pais dirigiram-se novamente para o hospital. Abalada interiormente, Ana Lucia não demonstrava tanta emoção como o marido. José Marcio estava visivelmente abatido, chorando durante quase todo tempo. Os médicos observavam a reação do casal. Diante do que viam, Dra. Márcia, que fazia parte da equipe, resolveu aproximar-se de Ana Lucia. Com os braços enganchados nos da mãe de Heitor, as duas caminhavam pela sala de espera do hospital e, com cautela, a doutora explicava a Ana Lúcia sobre a morte encefálica do filho. Heitor estava vivendo apenas com o apoio dos aparelhos, uma vez que o cérebro não enviava mais estímulos ao organismo.

* Trecho inicial do último capítulo do livro "História sobreviventes", do Trabalho de Conclusão de Curso na Unitau, feito em parceria com a jornalista Ana Camila Campos. Amanhã, publico a segunda parte.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Filosofia: cada um tem a sua (ou não!)


A filosofia de vida da minha avó se resume em uma frase: “Feliz aquele que nasce e morre...”

Tem como ser trágico? Obviamente que não. A frase é tão absurda – ou melhor, a filosofia de vida – que atinge o status de cômico.

Importante ressaltar que ela já passou por uma depressão forte. Porém, nada justifica tamanha depreciação à vida. Ou melhor, do viver!

É tão bom acordar logo pela manhã – poderia ser um pouco mais tarde, fato... Sair para a rua, ver gente. Ouvir a mistura de sons e decifrar o conjunto de cores que cada cenário nos proporciona.

Mas, voltando a frase infeliz... Por tempos pensei que ela fosse resultado da depressão. Ponto final. Minha avó perdeu meu avô, em 1996. Na tentativa de deixá-la mais próxima de nós, alugamos uma casa no centro da cidade. A família toda mora em Pindamonhangaba, interior de São Paulo.

No entanto, a ideia saiu pela culatra. Ela entrou em uma profunda depressão. Quem olha para ela hoje e vê uma foto da época, diz que está rejuvenescendo conforme os anos passam.

Bom, poderia surgir daí tamanho desproposito (a frase, a filosofia. Enfim...). Porém, medo é ver que, nas entrelinhas, talvez até de forma inconsciente, muitas pessoas vivem assim.

Impressionante como que, para alguns, tudo vira problema. Se a ponta do lápis quebra, parece que para voltar a escrever será preciso derrubar uma árvore para fazer outro lápis.

A pergunta é: como pode haver tanta baixa estima? Cabe isso tudo no ser humano?

Não é nem questão de comparar os seus problemas com os dos outros para sentir alívio. “Sempre que acontecer algo, vou pensar no drama dos japoneses.”

Não precisa disso. Aliás, isso é muito cruel. Para você se livrar de um problema, precisa medir na régua do problema alheio? Pense no problema do outro quando estiver com a mente positiva. Capaz de transmitir boas energias.

Sorrir demais gera rugas. Ser rancoroso e viver com raiva desenvolve câncer.

Bom, essas são lendas urbanas, com certa base científica. Acredite nelas ou não, escolha a melhor forma de viver. Por você e pelos outros.

Com uma parábola, fechamos:

Certo dia, um Reio chegou para um Sábio e perguntou:

- Sábio, me responda três perguntas?!

- Claro, Majestade!

- Sábio: qual é o momento mais importante da minha vida? Qual a pessoa mais importante da minha vida? Qual é a atitude mais importante que devo ter em minha vida?

Pensativo, o Sábio respondeu:

- Rei, o momento mais importante da sua vida é o AGORA, a pessoa mais importante da sua vida é QUEM ESTÁ AO SEU LADO e a atitude mais importante da sua vida é FAZER ESSA PESSOA FELIZ.

Inté!

domingo, 20 de março de 2011

O tamanho do corredor...


No dicionário, o termo “corredor” ganha diversos significados. E não haveria de ser diferente... Tratemos aqui apenas do substantivo masculino ligado à arquitetura, como uma simples passagem. Simples? Talvez!

Um corredor leva há algum lugar... Um destino; seja ele qual for!

Existem corredores curtos, outros mais longos. Há escuros; claros... Meia luz. Existem altos; baixos. De tetos alcançáveis, ou realmente distantes, assim como a imensidão do céu repleto de estrelas e uma lua imensa – alguém viu na internet: a lua está mais perto do mundo. Aproveite para contar as crateras; tentar ver São Jorge.

Mas, enfim, não vamos perder muito o foco.

Já imaginou que o mundo pode caber dentro de um corredor? Ah, pode! Pode, mesmo!
Conversa de corredor é conversa banal. Ninguém para alguém no corredor para estabelecer um diálogo importante.


Em um corredor, no muito, você joga uma conversa fora, faz uma fofoca, sintetiza um tema. Agora, quando você desanda para um diálogo, no meio de um corredor: tenha certeza, o tema é sério!

E vamos combinar: há lugar melhor do que o meio de um corredor para você tratar de um tema sério?

Na frente está você com seu “assunto-pressão” – carece o hífen e as aspas para caracterizar o momento –, atrás do seu ouvinte há uma parede que impede qualquer matéria de atravessá-la. Sobram os lados. Mas naquela tensão do diálogo sério, o corredor parece ter incorporado as proporções de um universo sem fim – cabe “universo sem fim”, pois sabe-se lá se há fim no universo e qual é ele e tal...

Resumindo, não há saída considerável.

Esqueça, você está fadado: terá que desenvolver aquele assunto sério – vezes chato – do início ao fim.

Se você achou este papo muito louco, meio sem pé nem cabeça, torça para que na sua vida corredor continue sendo um simples caminho que liga um ambiente a outro e que nele prevaleçam apenas as fofocas cotidianas.

sábado, 19 de março de 2011

A moradora do 1055

A noite chuvosa do dia 30 de dezembro de 2009 pouco parece importar para ela. Afinal, pouco vai mudar sua rotina no dia seguinte.

Chega 31 - véspera de 2010.


Não tem despertador, mas o varar do sol pelas frestas do 1055 faz com que se levante bem cedo.

O 1055 fica na Rua Nossa Senhora de Fátima, que faz ligação com a Avenida Riachuelo, próximo aos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro.

Ela. Chega! Ela é muito vago... Rute?! É, pode ser Rute! Ou melhor Carmem?

Enfim, seria como em um jogo de loteria: uma hora sairá a bolinha com o nome correto.

Mas, de volta ao dia 31 de dezembro...

Rute – ficamos com este mesmo – teve uma obrigação fisiológica logo cedo. Algo normal para qualquer ser humano. Mas, antes de “cumpri-la”, fumou o primeiro dos cerca dos 30 cigarros que queimaria durante todo o dia.

Depois, a atividade fisiológica acontece de forma natural. Ali mesmo, na segunda sequência de rodas do 1055.

É, Rute mora embaixo da carroceria de um caminhão scania, que fica por dias parado na rua fluminense.

Chegou ali, dizem os moradores, há alguns meses. O poder público já tentou despejá-la. Rute volta. Rute quer ficar...

Não paga aluguel. A luz do sol faz sua função durante longas 14 horas do dia. Água? Comida?

Balela!

Rute caminha pela rua. Não tem amigos. Da fato, reais não... Mas o que é real para Rute?

Quando ela critica o poste que entrou no seu caminho. Ou reclama da árvore que cismou em baixar um braço cheio de pelos verdes em sua cabeça. Rute está interagindo.

Está claro que não tem amigos. Mas é cheia de inimigos. No dia 28, três dias antes da virada para 2010, a senhora do 1055 havia se irritado com um cachorro.

O melhor amigo do homem – mas não de Rute! – havia xeretado em seu saquinho. Brigou por longos minutos com o animal...

Ah, o misterioso saquinho!

Era nele que Rute, sempre com seu vestido longo – preto – e pés no chão – também bem pretos –, mexia incessantemente. Mexia e resmungava.

A crítica; a lamentação; a lamúria... São características que fazem parte da vida daquela senhora.

Assim como o cigarro também faz. Aqui cabe uma correção: não eram cigarros. Eram as famosas “bitucas”. A soma está certa: uma média de 30 por dia...

Agora tudo faz sentido. Ela mexia no saquinho, xingava, e aparecia fumando a bituca. E fumava mesmo; afinal saia fumaça...

É preciso ser enfático no “saia fumaça” – pois de fato saia. Rute fazia tanta coisa em sua realidade paralela, que fumar poderia ser apenas mais uma.

Mas não era... Era a realidade mundana – pertencente a maioria dos seres humanos, onde poste é de concreto; cachorro é animal; e árvore é uma planta. Ponto!

Porém, ela fumava. E, o que era coincidência, agora passa a fazer sentido. Os momentos de fumo aconteciam exatamente após mexer no “tal” saquinho.

Ali, agora numa suposição mais concreta, havia um fósforo. Talvez um isqueiro. Duas pedras. Enfim, algo que permitisse a formação de fogo, que possibilitaria Rute de satisfazer seu vício.

Então, no dia 31 de dezembro, enquanto uma rodinha de samba se forma no bar à frente do caminhão, outros planejam curtir os fogos nas praias ou reunir a família para uma noite de confraternização...

Aquele dia parece comum para Rute. Na realidade dela, talvez não exista horário. Não exista tempo. Afinal, não existe nem mesmo espaço...

Parece estranho: seria possível existir vida sem tempo? Sem espaço? Isso é assunto que envolveria físicos, matemáticos, astrônomos... Deve ser um papo bem chato.

Deve ser mais interessante a discussão acirrada que Rute teve com o poste – é “o poste" mesmo. Era um específico com quem ela encrencava diariamente.

A última discussão presenciada foi no dia 1° de janeiro de 2010.

Enquanto muitos se espantavam com os deslizamentos em Angra dos Reis, ou a enchente em São Luis do Paraitiga, Rute fumava seu quinto pedaço de cigarro, às 10 da manhã, enquanto buscava um senso comum com o poste.

Coisas da Rute!

Desabafo de um amigo...

Dia 22 de julho de 2006. Após percorrer o extenso corredor do Jornal da Cidade, em Pindamonhangaba, cidade do interior de São Paulo, entrei pela primeira vez à porta da redação.

Era o meu primeiro dia no JC.

Estudante do primeiro ano de jornalismo, observei todos com certo receio. Mas algo me chamou muita atenção. Um enorme cabelo ondulado (ruivo) escondia uma face...

- Bom dia! Disse ao chegar na mesa central da redação.

Logo àquela face se apresentou – num virar súbito da cadeira giratória.

- Olá, você é o Giovanni, né?! Novo estagiário...

Ela era Rita – “faz tudo”. Braço direito do diretor presidente...

Com mais de 20 anos de casa, sabia de tudo e de todos que por ali passavam. Na casa de seus 35 anos, separada, cuidava da filha e companheira inseparável Lorena. Uma criança esperta... Adorava Coca-Cola!

Rita foi uma das pessoas por quem me apeguei. Juntos, pegamos ônibus – vezes vans lotadas . Era uma das pessoas com quem sentava para almoçar todos os dias no refeitório do JC... Ela adorava música; e eu também. Ela cantava bem. Eu não.

Percebi aos poucos que estava convivendo com uma guerreira.

Certo dia, em uma daquelas “correntes” que chegam via e-mail, um texto muito bonito. Não tinha como saber, mas se tornaria marcante...

Em resumo, o texto contava a história de uma criança que, sentada embaixo das pernas de sua avó, enquanto a senhora bordava, não entendia aquele emaranhado de fios.

- Vovó, por que está tudo tão misturado?

- Meu filho, vá brincar um pouco lá fora e assim que terminar te chamo. Você sentará em meu colo e verá de outro ângulo...

Assim o menino fez!

Passados alguns minutos, foi chamado pela avó para que pudesse entender melhor o “tal” emaranhado de fios. Sentou-se no colo da senhora:

- Nossa vovó, que desenho lindo...

Agora adulto, com carreira profissional e família para sustentar, aquele pequeno menino olha para o céu e faz a mesma pergunta, agora dirigida a Ele: “Deus, por que está tudo tão confuso”.

A resposta parece a mesma que ouviu da avó, anos atrás: “Fique tranquilo meu filho; aqui de cima estou bordando sua vida!”

Lembro-me que repassei a “corrente” para alguns contatos. Rita já trabalhava em uma sala ao lado, na nova divisão de departamentos do jornal. Minutos depois entrou pela porta da redação:

- Adorei o texto, Giovanni. Muito tocante!

Passaram-se os dias. Rita estava incomodada com um caroço próximo ao pescoço. Fez exames.

Estávamos sentados na porta do jornal – era dia de pagamento. Ela passou correndo, aos prantos. Trancou-se na sala com Adélia – secretária e tesoureira do JC.

Mais tarde saberíamos: estava com câncer. Como diria minha avó, que sofreu do mesmo e recusava-se a dizer o nome, a “doença do mal”.

Rita perdeu os cabelos, devido as fortes sessões de quimioterapia. Com uma peruca lisa, dizia: “Ainda volto a ter meus longos ondulados”. A cor da peruca seguia o tom original das madeixas: ruivo.

Deixei o JC e segui meu rumo profissional. Rita estava ainda em tratamento. Alguns meses depois recebi a notícia que ela estava internada no Hospital Regional, em Taubaté.

Fui até lá, em um intervalo da faculdade.

Não gosto de hospital, mas senti vontade de ir.

Fui!

Entrei no quarto em que ela estava, recusando-se a comer a comida do hospital.

- É completamente sem sal! -
resmungava.

Mas, o que mais me chamou a atenção foi o porta-retrato ao lado de sua cama. Ele estampava uma foto de Lorena. Para a pequena menina, Rita estava viajando. Não tinha conhecimento da doença da mãe.

Quando Rita me deu “oi”, logo percebi sua voz rouca. As sessões de quimio realizadas até então haviam sido em vão. A doença voltara. Era agressiva e novas sessões viriam pela frente...

Conversamos por 10 minutos e falamos sempre positivamente de sua recuperação. Para minha surpresa, em determinado momento, Rita olhou mais fixamente para mim e com tom de certeza e dúvida disse-me:

- Deus está bordando, não é?

Este foi um momento que guardei por dias; mas hoje sinto mais lucidez - e certa necessidade - em falar no assunto.

Hoje, no dia em que Rita se vai, estou aqui, sentado na frente de meu computador, apenas “desabafando”... Olho para o céu e prefiro dizer: “Agora, Rita, ajude Deus a bordar os caminhos de Lorena...”

* Rita de Cássia Lemos faleceu no dia 10 de agosto de 2008, vítima de câncer, depois de mais de um ano de luta.